Chico Risada vendia
amendoim para ajudar
os pais, que ganhavam
pouco na fábrica, mas
era o menino mais
alegre da rua, talvez
da cidade. Mesmo
quando a venda do
amendoim não ia bem ou
era maltratado por um
freguês nervoso, não
parava de cantar, de
estar sempre
brincando. E se lhe
perguntavam por que
aquela tanta alegria,
respondia com um
sorriso que mostrava
os dentes cariados de
menino pobre.
- Porque tenho um raio
de Sol.
Os outros meninos não
entendiam muito bem
essa resposta e o
Salustiano, cheio de
bossa pra inventar
coisas, chegava a
dizer que certa
madrugada o Chico
Risada estava na praia
esperando o Sol
nascer.
- Vai ver que foi
nessa madrugada que
ele apanhou o raio de
Sol.
Um dia o bairro
acordou triste. No
terreno abandonado
onde os garotos
jogavam pelada iam
levantar um prédio de
oitenta andares. Pra
espantar a tristeza,
que deixava muito
menino chorando,
Salustiano teve uma
grande idéia:
- Vamos pedir
emprestado o raio de
Sol ao Chico Risada.
Assim ninguém morre de
tristeza, e ninguém
morrendo de tristeza a
gente arranja outro
lugar pra pelada.
Chico Risada não
emprestou o que os
meninos queriam, mas
deu uma lição que
adiantou muito.
- Eu não posso
emprestar o raio de
Sol a vocês porque ele
não está guardado num
armário, numa gaveta.
- Então onde é que ele
está? Você diz sempre
que é alegre porque
tem um raio de Sol.
Nós queremos só um
pouquinho dele.
- Vocês não entenderam
direito o que eu quis
dizer. Eu canto, eu
estou sempre alegre...
Mas não é porque tenho
um raio de Sol me
dando essa alegria. É
ao contrário. Eu tenho
um raio de Sol
justamente porque vivo
cantando, sempre
alegre. Todos nós
devemos ter esse raio
de Sol dentro da
gente.
Eles querem ver a
gente triste. Mas nós
não damos confiança e
vamos arranjar um
lugar pra pelada. Nós
temos um raio de Sol.