|
" O ferreiro "
(Lynell Waterman - por
Paulo Coelho)
Era uma vez um
ferreiro que, após uma
juventude cheia de
excessos, resolveu
entregar sua alma a
Deus. Durante muitos
anos trabalhou com
afinidade, praticou a
caridade, mas, apesar
de toda sua dedicação,
nada parecia dar certo
na sua vida. Muito
pelo contrário: seus
problemas e
dívidas acumulavam-se
cada vez mais.
Uma bela tarde, um
amigo que o visitara
-- e que se compadecia
de sua situação
difícil -- comentou:
"É realmente estranho
que, justamente depois
que você resolveu se
tornar um homem
temente a Deus, sua
vida
começou a piorar. Eu
não desejo enfraquecer
sua fé, mas apesar de
toda a sua crença no
mundo espiritual, nada
tem melhorado .
O ferreiro não
respondeu
imediatamente. Ele já
havia pensado nisso
muitas vezes, sem
entender o que
acontecia em sua
vida.
Entretanto, como não
queria deixar o amigo
sem resposta, começou
a falar e terminou
encontrando a
explicação que
procurava. Eis o que
disse o ferreiro: Eu
recebo nesta oficina o
aço ainda não
trabalhado e preciso
transformá-lo em
espadas. Você sabe
como isto é feito?
Primeiro eu
aqueço a chapa de aço
num calor infernal,
até que fique
vermelha. Em seguida,
sem qualquer piedade,
eu pego o martelo mais
pesado e aplico golpes
até que a peça adquira
a forma desejada.
Logo, ela é mergulhada
num balde de água fria
e a oficina inteira se
enche com o barulho
do
vapor, enquanto a peça
estala e grita por
causa da súbita
mudança de
temperatura. Tenho que
repetir esse processo
até conseguir a espada
perfeita: uma vez
apenas não é
suficiente .
O ferreiro deu uma
longa pausa, acendeu
um cigarro e
continuou: As vezes, o
aço que chega até
minhas mãos não
consegue agüentar esse
tratamento. O calor,
as marteladas e a água
fria terminam por
enchê-lo de
rachaduras. E eu sei
que jamais se
transformará numa boa
lâmina de
espada. Então, eu
simplesmente o coloco
no monte de
ferro-velho que você
viu na entrada de
minha ferraria.
Mais uma pausa e o
ferreiro concluiu: Sei
que Deus está me
colocando no fogo das
aflições. Tenho aceito
as marteladas que a
vida me dá, e às vezes
sinto-me tão frio e
insensível como a água
que faz sofrer o aço.
Mas a única coisa que
peço é: "Meu Deus, não
desista, até que eu
consiga tomar a forma
que o Senhor espera de
mim. Tente da maneira
que achar melhor, pelo
tempo que quiser --
mas jamais me coloque
no monte de
ferro-velho das almas"
.

|